Domingo, Setembro 19
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SEMINÁRIO “SANANDO AS PRÓPRIAS FERIDAS” APRESENTA, NO 1º DIA, PISTAS PARA O COMBATE AO ABUSO DE MENORES E VULNERÁVEIS NO ÂMBITO DA IGREJA

O Primeiro dia do Seminário “Sanando as Próprias Feridas” promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), por meio do Núcleo Lux Mundi, foi iniciado nesta quinta-feira, 8 de abril, com reflexão e profundidade. Cerca de 450 participantes estão acompanhando os debates e reflexões do evento que acontece até o sábado, dia 10 de abril, de forma on-line. As reflexões do seminário são orientadas para aprofundar o pedido de conversão e promoção de ações concretas, expresso na Carta Apostólica “Vos Estis Lux Mundi”, do Papa Francisco, com ênfase em três tópicos:

  • Escuta e cuidado das vítimas no seu aspecto pastoral e espiritual, visando à cura das feridas e a reconciliação;
  •  Enfrentamento de casos de denúncias e seus aspectos jurídico e canônico;
  • Orientação na elaboração de Diretrizes para a proteção da criança, do adolescente e da pessoa em vulnerabilidade na Igreja do Brasil.

O arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, enfatizou que a experiência do evento é bonita e testemunhal, onde, sem sombra de dúvidas, poderá facilitar e ser luz numa construção de uma resposta viável e concreta da Igreja no Brasil, nas dioceses e Igrejas particulares, proporcionando segurança e tranquilidade às crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis em todo o Brasil.

“Somos cada vez mais convidados a mudarmos juntos essa página dolorosa que nos atinge, mostrando, como dizia o papa São Paulo VI – ‘A Igreja é perita em Humanidade!’. Saber cada vez mais cuidar, com olhar missionário, impulsionada pela Palavra de Deus que é sempre vida!”, disse.

O Testemunho de uma vítima

Intensificando a concretude das palavras, transformando-as em vida, a noite foi iniciada com o testemunho de um jovem, cuja identidade não revelaremos, que relatou sua experiência a partir das dificuldades familiares. Ele contou que a Igreja pra ele era um lugar onde não havia confusão.  Contudo, em um de seus passeios a um sítio a vítima contou ter sido abusada sexualmente por um sacerdote. O jovem disse que desde o começo dos abusos percebeu que algo não estava certo. Este acontecimento fez nascer em nele uma revolta contra a Igreja.

“Queimei minha batina de coroinha e até a Bíblia. Minha mãe sem saber o que aconteceu, me bateu tanto que fui parar no hospital. A partir disso procurei e me achei nas drogas. Elas não foram as piores causas, mas foram consequências de toda uma vida”, disse. O trabalho de retomada de confiança na Igreja, conforme o relato do jovem, se deu numa palestra do Padre Aroldo, da Fazenda da Esperança. “Iniciei com confiança o meu tratamento e com muito afeto, a partir da Palavra de Deus. A Fazenda da Esperança me ensinou e me deu uma vida nova”, contou.

A experiência de um cardeal

O arcebispo de Boston (EUA), cardeal Seán Patrick O’Malley, inaugurou a série de conferências do seminário. O prelado foi nomeado em 2017 pelo Papa Francisco para a Congregação da Doutrina da Fé da Sé Apostólica, onde também acompanha de perto a Pontifícia Comissão para a proteção aos Menores. O conferencista comentou a produção cinematográfica “Spotlight”, filme que expôs ao mundo uma rede de abusos de menores na  arquidiocese onde exerce seu ministério.

Segundo o cardeal, trata-se de um filme que provocou grande dor e ameaçou toda a vida católica e o funcionamento dos hospitais, ações sociais e escolas da Igreja local. Ele conta que a crise da arquidiocese, que no início tinha um caráter moral, em razão da descoberta dessa rede gerou um impacto nas finanças da arquidiocese e, por consequência, uma crise econômica.

O bispo enfatizou não haver mais desculpas para agir rapidamente diante dos casos de abusos sexuais na Igreja. “O Sofrimento das vítimas é grande e como consequência, a sua própria fé, sua relação com Deus e com a Igreja é dilacerada”, salientou.

Para o cardeal, a Igreja Católica está sendo corajosa e cada vez mais persistente no combate a este mal humano que está também dentro de suas comunidades. Ele reforçou que os papas Bento XVI e Francisco compreendem a necessidade da tolerância zero para qualquer tipo de violência, mas sobretudo àquelas relacionadas às crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis.

“Devemos cada vez mais com coragem combater essas ações. As dioceses precisam de normas, procedimentos e pessoas  destinadas a esse serviço de escuta, de orientações e acompanhamento. Há a necessidade de um processo educacional das Igrejas particulares em relação ao clero para que não encobertem casos ou improvisem ações na conduta das vítimas e agressores”, disse.

Para o religioso, sobre o tema, a Igreja enfrente, ainda hoje, os desafios da transparência, da responsabilização pelos delitos e da tolerância zero. “Se não fizermos isso, jamais recuperaremos a credibilidade diante dos fiéis. Nossas ações caritativas e espirituais serão cada vez mais impactadas e muitas pessoas sofrerão por culpa da própria Instituição”, disse.

Pedir perdão às vítimas

A policial americana aposentada, Teresa Kettelamp, também participou do seminário como conferencista. Ela também integra Pontifícia Comissão de Proteção aos Menores. Segundo Kettelamp, não devemos jamais deixar de pedir perdão às vítimas.

“As experiências apontam que o trauma é amenizado em relação à comoção institucional quando quem conduz pede desculpas e perdão em nome da Igreja. Não podemos cansar de pedir perdão às vítimas. A Igreja jamais pedirá perdão o suficiente, mas não podemos deixar de fazê-lo”, acrescentou.

Ela enfatizou que a missão da Pontifícia Comissão é oferecer e aconselhar o Santo Padre a partir de diretrizes e normativas a respeito da segurança de crianças e adolescentes. “Não somos um órgão de tomadas de decisão, mas auxiliamos o Papa na elaboração de estatutos, além de buscarmos colaborações a nível mundial”, disse.  A Pontifícia Comissão de Proteção aos Menores da Santa Sé conta atualmente com nove membros participantes, dentre os quais, um brasileiro, o Nelson Giovanelli dos Santos, membro da Fazenda Esperança.

A policial chamou a atenção para a necessidade de olhar para as vítimas sempre de forma forma individualizada. “Cada um possui uma história, uma problemática, um momento da vida em que foi violentada. É necessário dar identidade, saber o nome e escutar mais do que falar”, apontou.

Tereza definiu o abuso sexual como um ato que viola a dignidade e a autoexpressão do indivíduo, o faz perder o controle do próprio corpo e experimentar sentimentos de impotência, raiva, fúria, depressão, autoflagelação, crença no abandono de Deus. “Até mesmo o sentimento de indignidade quanto a ser amado são sintomas vivenciados pelas vítimas”, disse a policial.

“Aqueles que são abusados pelos membros da Igreja são desafiados em seus laços espirituais com o Pai e com a própria instituição. Há a necessidade urgente de um resgate. Faz-se necessário olhar com atenção as circunstâncias em que o abuso foi relatado, o grau psicológico em que se encontra a vítima, a idade em que o abuso foi denunciado e o impedimento físico em que se encontra a vítima”, apontou.

Cuidados e iniciativas

Kettelkamp apresentou, com exemplos, as diretivas básicas sobre como encaminhar e tratar, nas Igrejas particulares, as denúncias recebidas:

  • Quem recebe a denúncia deve sempre reconhecer a coragem da vítima em partilhar a agressão e assegurar que o agressor não fará mal à ela e nem a quem ama e a seus familiares;
  • Agradecer a confiança da partilha e afirmar que ela fez o certo em dizer. O importante não é perguntar detalhes, mas mostrar que as medidas serão tomadas o mais rápido possível;
  • É importante documentar a fala da vítima, sem banalizá-la ou descredibilizá-la e fazer o encaminhamento às instituições que possam ajudá-la;
  • A família também é atingida pela violência;
  • A Igreja deve favorecer todo o processo de acompanhamento das vítimas até a cura;
  • Propiciar às vítimas a escolha quanto ao local de partilha, o que querem contar, quem querem no ambiente;
  • Há a necessidade de criar uma cultura de encorajamento das vítimas para que falem sem medo ou receio de sofrerem represálias.

Aprendizagens a partir da experiência

Ainda na programação do primeiro dia, os participantes foram divididos em 20 grupos para partilhar o que aprenderam das duas conferências. As reflexões foram apresentadas aos conferencistas. O cardeal respondeu que muitas vítimas demoram para se manifestar por falta de coragem e por medo dos processos.

“Precisamos como instituição, aprender, escutando essas pessoas. Repetir o ato de contrição e pedir desculpas à elas. Quando falam, nos dão forças como Igreja para levarmos cada vez mais a sério essa ferida que nos aflige”, disse.

A policial aposentada Teresa Kettelkamp falou sobre a Igreja continuar sendo luz diante das feridas vivenciadas pelos membros violentados. Respondeu que cada vez mais as dioceses precisam de clareza e transparência em seus protocolos, prestando cotidianamente conta deles, deixando a teoria e assumindo definitivamente a prática. “Ao executarmos esses procedimentos com transparência, curamos mais que uma pessoa, mas uma unidade inteira”, enfatizou a policial.

Sobre o funcionamento adequado das comissões diocesanas, apontadas por um dos grupos, O’Malley acredita que uma boa comissão formada por leigos comprometidos, com profissionais da área da psicologia, acadêmicos, religiosos e sacerdotes podem auxiliar melhor o bispo diocesano e contribuir eficazmente na restauração da confiança dos fiéis.

O cardeal ainda reforçou que as autoridades civis devem ser avisadas imediatamente quando surgir uma denúncia. “Um crime como esse de abusos sexuais deve ser trabalhado em conjunto com as autoridades civis. Por mais que cada caso seja um caso, a Igreja buscará assegurar um olhar canônico. Quem tratará do caso, à luz das leis civis são as autoridades competentes. Por isso devemos recorrer às demais autoridades”, finalizou.

 

Com a colaboração e informações de Ronnaldh Oliveira, SDB

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